Por falar em gastronomia, é de domínio público que um chefe espanhol, Ferran Adrià, cujo restaurante fica a 80km de Perpignan e onde se reserva mesa com pelo menos 18 meses de antecedência, inventou as tais espumas, e ninguém que preserve sua reputação pode dizer que não conhece, pelo menos de nome, o famosíssimo El Bulli. A cozinha de Adrià é uma cozinha de autor, como são certos filmes. Segundo ele, “a desconceitualização, a ironia, o espetáculo, são completamente lícitos, desde que não sejam superficiais, mas que respondam ou se conectem com uma reflexão gastronômica”. Sensacional, não?
Seu restaurante só abre em de abril a setembro; o resto do tempo ele passa so seu ateliê-laboratório, “desconstruindo” sabores e texturas; só abre para jantar, não recebe mais de 45 pessoas cada noite, e o menu degustação, com 25 pratos,é sempre uma surpresa. São famosas as sua criações: caipirinhas sólidas, o melão com presunto e o ravióli líquidos, o pirulito de gaspacho, o foie gras pulverizado e o sorvete de alcachofra – quente, é claro. Seu restaurante foi considerado o melhor do mundo dois anos seguidos, e lá o preço de uma refeição – fora os vinhos – beira os 200 euros. (Danuza Leão, Down no high society, RG Vogue, Dezembro/2007).

Comecei com esse texto por uma única razão, quando comecei a ouvir falar em Adrià, a coisa com o que eu mais sonhava era fazer uma reserva, e depois de 1 ano e meio poder me sentar de frente do lago e esperar chegar à minha mesa as criações do “chef do momento”. Como tudo que chega ao auge, surgem filas de estudantes querendo estagiar e aprender os segredos da desconstrução dos pratos, o chef passa a assinar inúmeras linhas de produtos que vão desde panelas à azeites e abre novos restaurantes com foco em fast food. Quando não quer abrir mais um restaurante que siga a sua proposta, no máximo dá um treinamento. E foi isso que aconteceu no Hotel Faena.
Fiz a reserva pelo site do hotel com um mês de antecedência, era uma noite especial pra mim e queria que o jantar fosse lá. Já estava preparado para um menu degustação de 400 pesos por pessoa. Mas valia para conhecer a tão famosa gastronomia molecular. (detalhe, a gerente não me informou que o mesmo se dava em 3h contadas no relógio). Chegando você já fica encantado pela imponência do hotel, mais uma obra de Philip Starck e vindo dele se preparem para tanto amar quanto odiar seu trabalho, dependendo do ambiente.
No El Bistrô, o primeiro impacto é a decoração. Como diria Danuza no mesmo artigo: – E por falar nesse indivíduo (Starck), a sala de jantar da sua nova criação, o hotel Faena de Buenos Aires (não tão novo, porque depois veio o Fasano Rio, que só se salvou porque Rogério Fasano brigou muito com o arquiteto), parece um barracão de escola de samba, com várias cabeças de boi brancas (na verdade, unicórnios) nas paredes, que parecem feitas de isopor, o que eles consideram o máximo….

Mas vamos para a comida que é o que interessa. Primeira decepção, o menu degustação tinha sido encerrado pois já eram 21h30. Mas tudo ok ainda, de agrado mandaram entradinhas, sem foto pois desfocaram. Azeitona Líquida, interessante, servida numa colher, uma forma oval, brilhosa e verde, que quando se morde tem gosto de quê? Azeitona, lógico. Depois um pequeno sushi, lindo, ao morder a surpresa, gosto e textura de torresmo.
De entrada pedi um salmão com nhoque. Vieram cubos de salmão selado (crus por dentro) com um nhoque levíssimo, acompanhados de uma espuma de parmesão e caviar. Muito bom!

O prato principal foi um cervo, com molho de chocolate e frutas cristalizadas. Assim, puro e simples. Sabores doces para equilibrar uma carne de caça, de sabor marcante. Simples, simples não é, até porque não se comer cervo todo dia, mas nada demais…devia ter coisa melhor.

Sobremesas não me interessei por nenhuma. Para terminar o bom e velho café com um cigarrinho. Valeu a experiência, mas não quero saber nem tão cedo das invencões de Adrià e seus seguidores, prefiro comida de verdade.
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